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05 de Junho de 2020

Fundo Vale completa 10 anos de atividades

Artigo de Patrícia Daros, diretora de operações, e Márcia Soares, líder de parcerias e redes, resgata o histórico do Fundo Vale em comemoração a seus 10 anos de contribuição à agenda socioambiental.

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Fundo Vale: 10 anos de apoio à agenda socioambiental

Por Patrícia Daros e Márcia Soares*

Quando os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) ainda eram os Objetivos do Milênio, e a agenda de ESG (Environmental, Social and Governance) não tinha sido incorporada na análise de fundos de investimento e tinha um papel secundário nas decisões das empresas, a Vale, segunda maior mineradora do mundo, lançava sua Política de Desenvolvimento Sustentável e criava um mecanismo de investimento social privado com foco na agenda ambiental.

Lançado em 5 de junho, Dia do Meio Ambiente, há exatos 10 anos, o Fundo Vale, uma associação sem fins lucrativos, que nasceu com a proposta de apoiar organizações da sociedade civil nas agendas de monitoramento do desmatamento, áreas protegidas e biodiversidade e municípios verdes.

A construção colaborativa sempre esteve em nosso DNA. Desenvolvemos ações em parceria com aqueles que tinham interesses comuns. E, assim, construímos uma rede de parcerias com mais de 50 organizações, aportamos cerca de R$ 130 milhões para projetos socioambientais, 70 iniciativas foram apoiadas, e estivemos entre os Top10 financiadores da conservação ambiental da Amazônia em duas edições do estudo realizado pela Gordon and Betty Moore Foundation, entre 2007 e 2015.

Legado para a conservação da Amazônia

Entre os resultados que nos orgulhamos, está a modelagem e expansão de uma governança local pautada no estímulo à economia de base sustentável. A prova de conceito aconteceu no município de Paragominas (PA) e influenciou a criação do Programa Municípios Verdes (PMV), hoje uma política pública do estado do Pará. O modelo também foi levado para o Mato Grosso e derivou no Programa Mato-grossense de Municípios Sustentáveis.

Também apoiamos modelos diferenciados de gestão territorial indígena, nos estados do Acre, Rondônia, Mato Grosso e Pará, com destaque para o Parque Indígena do Xingu (PA) e na TI Sete de Setembro (RO), do povo Suruí. As ações sempre buscaram a valorização dos recursos naturais e a sustentabilidade dos povos da Amazônia.

Para fortalecimento deste modelo de governança, acreditamos na produção e ampla disseminação de informação sobre desmatamento e degradação florestal no bioma. Nesta frente, apoiamos a estruturação do SAD – Sistema de Alerta de Desmatamento, criado pelo Imazon, que se tornou referência como ferramenta de transparência, de tomada de decisão e de controle social de informações públicas.

Economia da Floresta

Ao longo de sua história, o Fundo Vale sempre acreditou que para manter a floresta em pé e melhorar as condições de vida das populações locais era fundamental valorizar seus ativos, fortalecer cadeias produtivas da sociobiodiversidade e desenvolver uma economia regenerativa, de baixo carbono. Com essa lógica, em parceria com o GTA (Grupo de Trabalho Amazônico), apoiamos a construção colaborativa do primeiro Protocolo Comunitário de Uso Sustentável da Biodiversidade do país, no arquipélago do Bailique (Amapá), com empoderamento da comunidade local, apoio ao ordenamento territorial e fortalecimento de cadeias produtivas locais para melhoria de renda.

Também ajudamos na capacitação e desenvolvimento de uma visão de negócios em Reservas Extrativistas no Pará, para impulsionar a economia local e a conservação do bioma. Esta ação se desdobrou na criação de uma rede de cantinas para estruturar a logística e comercialização dos produtos, e em um selo que valoriza a cultura local, com sistema de rastreabilidade da produção, garantia de origem e comércio ético. Resultado da parceria entre o ISA e o Imaflora, e vários outras organizações, o Origens Brasil chega a agregar valor em cerca de 300% acima da política de preço mínimo de produtos extrativistas como castanha, babaçu e borracha, entre outros.

Negócios de Impacto Socioambiental

Entre 2015 e 2016, o Fundo Vale começa a refletir sobre aonde seus recursos seriam mais estratégicos. Nossa experiência vinha mostrando que oferecer alternativas econômicas para povos e comunidades tradicionais e rurais era fundamental para diminuir a pressão sobre os recursos naturais.

Começamos a desenhar uma nova trajetória, com foco no fortalecimento de um ecossistema que olhe para negócios ambientais sustentáveis, na aceleração de negócios socioambientais e na criação de instrumentos financeiros mais customizados para esse setor. Deixamos de ser uma organização que opera via filantropia privada tradicional, para uma lógica de Venture Philanthropy e Impact Investing. Trouxemos para nossa atuação mecanismos de mercado de investimento, soluções financeiras customizadas e híbridas (blended finance) e mensuração do impactos positivos de nossa ação.

Além disso, entendemos que nossa experiência na agenda florestal, com uma lógica de economia de baixo carbono e colaboração, tem muito a contribuir com os desafios e compromissos de sustentabilidade de nossa mantenedora. Para se ter uma ideia, entre esses compromissos já anunciados, está a recuperação e proteção de 500 mil hectares de floresta até 2030 para além de suas fronteiras. Dentro dessa meta, o Fundo Vale assumiu o desafio de propor uma abordagem inovadora de investimento de impacto para a execução de 100.000 hectares de recuperação florestal.

Queremos seguir por mais dez anos, assim, fortalecendo o ecossistema de impacto socioambiental, buscando escala para negócios que protegem os ecossistemas e trazem benefícios sociais, aproximando o mercado de investimento tradicional para essa agenda. Afinal, como diz Sir Ronald Cohen, presidente do Global Steering Group for Impact Investment (GSG), estamos vivendo a Revolução do Impacto e este é um caminho sem volta.

 

* Patrícia Daros é diretora de operações e Márcia Soares é líder de parcerias e redes do Fundo Vale.