Durante o ano de 2016 o IEB realizou um conjunto de ações visando qualificar a situação atual das cadeias de valor do agroextrativismo no sul do Amazonas, com apoio do Fundo Vale. O objetivo foi construir bases para uma estratégia de fortalecimento das cadeias de valor mais importantes para a população agroextrativista e indígena da região. O resultado foi uma série de notas técnicas sobre o agroextrativismo neste território. Fechar

09 de Setembro de 2016

Os sete desafios dos negócios sustentáveis na Amazônia

O Ciclo de Oficinas sobre Negócios Sustentáveis na Amazônia, realizado pelo Fundo Vale nos meses de julho e agosto, em parceria com o Fundo Amazônia, refletiu sobre os desafios e oportunidades para os negócios que valorizam a floresta em pé.

Participantes da terceira oficina, realizada nos dias 30 e 31 de agosto, em São Paulo.

Participantes da terceira oficina, realizada nos dias 30 e 31 de agosto, em São Paulo.

9 de setembro, 2016 – No dia 5 de setembro comemoramos o Dia da Amazônia, data que reforça a importância de conservação dessa riqueza natural. Hoje, um dos grandes desafios é estabelecer um modelo de desenvolvimento integrado à economia brasileira que preserve a cultura local, valorize a biodiversidade da região e gere benefícios sociais para a população local e povos tradicionais que lá vivem.

“Trabalhar mais em redes, potencializando a troca de experiências e a soma de esforços; inserir novos atores, que possam trazer inovação para o ambiente de negócios na região; e fazer tudo isso junto com a comunidade local estão entre ações relevantes que podem potencializar a Amazônia no contexto da economia nacional”, disse a diretora de Operações do Fundo Vale, Patrícia Daros.

Junto com o Fundo Amazônia, o Fundo Vale está entre os financiadores que mais investem na capacitação e fortalecimento de negócios sustentáveis na região amazônica, aqueles que valorizam a floresta em pé ou levem à diminuição do desmatamento ilegal.  Nos meses de julho e agosto passados, foram realizadas Oficinas de Aprendizagem sobre Negócios Sustentáveis na Amazônia, reunindo ao todo mais de 200 representantes de empresas, governos, instituições financeiras e organizações da sociedade civil que atuam no bioma, em três rodadas de discussão (uma em Brasília e duas em São Paulo).

Na ocasião, esses atores foram convidados a refletirem sobre o que um negócio na Amazônia precisa ter para ser sustentável.  “Iniciativas como esta têm o objetivo de aumentar a capacidade de gestão local e de viabilizar a rede de negócios de empreendedores comunitários, mas, sobretudo, capacitar os jovens que irão liderar e tocar essas atividades daqui a dez anos”, reforçou Daros.

Para o diretor-executivo da Vox Capital, Daniel Izzo, um dos participantes da oficina e o primeiro fundo de investimentos de impacto social positivo no Brasil, a utopia precisa ser buscada, mas é crucial arregaçar as mangas e trabalhar. “Há sempre uma distância entre o que queremos e o que estamos fazendo, mas se formos esperar que o negócio esteja perfeito, cumprindo todos os itens, não vamos começar nunca. É melhor fazer e buscar melhorar diariamente”, completou.

Nesse sentido, a troca de experiência entre os participantes trouxe vários aprendizados que podem ajudar a identificar onde estão os entraves e como viabilizar um modelo de negócio sustentável na região amazônica em questões como produção local, logística, comercialização, beneficiamento, financiamento, regulação e assistência técnica. A partir das discussões geradas nas oficinas, o Fundo Vale preparou uma lista com os sete desafios para a alavancagem dos negócios sustentáveis na Amazônia.

O ciclo de oficinas está servindo de importante subsídio para a criação de um programa com foco em negócios sustentáveis na Amazônia, a ser lançado em 2017 pelo Fundo Vale. A ideia é desde já estimular um ecossistema de negócios socioambientais de impacto na Região Norte.

 

Sete desafios para a alavancagem de negócios sustentáveis na Amazônia

  1. Produção local

Fortalecer o mercado local, com respeito à cultura e ao modo de vida, associado a uma estratégia de segurança alimentar, pois muitos produzem para consumo próprio e comercializam o excedente. É essencial identificar a vocação dos produtores para trabalhar com essa diversidade, mesmo que exista um produto carro-chefe que ajude a sustentar o arranjo comercial. Também é importante trabalhar com a organização social, cooperação e o fortalecimento institucional da comunidade. Não adianta, por exemplo, investir na produção de açaí, se não há um bom acordo com o barqueiro que transportará a mercadoria.

 

  1. Beneficiamento

O beneficiamento do produto na comunidade pode agregar valor à mercadoria, mas deve ser feito levando em consideração questões culturais, pois, em geral, é uma atividade adicional às tarefas realizadas no local. Por isso, é melhor priorizar o beneficiamento de produtos que a comunidade já conheça e domine o processo, aprimorando o que for necessário para atingir as melhores práticas. Para realizar o beneficiamento, também é importante conhecer a legislação, sobretudo relacionada às questões sanitárias. Parcerias com indústrias ou comerciantes finais podem ajudar a aliar a oferta à demanda e possibilitar o investimento em maquinários ou outras ações voltadas ao beneficiamento.

 

  1. Logística

Um dos grandes desafios para a sustentabilidade de qualquer negócio na Amazônia é vencer as grandes distâncias e a dificuldade de transporte da produção até os centros consumidores, devido ao alto impacto no custo final dos produtos. A criação de entrepostos e de “cantinas”, como as já implantadas na Terra do Meio paraense, é uma alternativa para reduzir custos de logística e aumentar a capacidade de armazenagem. Desenvolver sistemas de cooperação para fretes coletivos e frete amigo (com valor diferenciado) também são boas opções; assim como investir e fomentar o desenvolvimento de tecnologias alternativas, como o uso de energia solar ou embarcações mais modernas que as tradicionais.

 

  1. Comercialização

Cada vez mais é crescente a preocupação com a origem do produto, mas é preciso conhecer bem os mercados consumidores para oferecer produtos alinhados à demanda. Ao mesmo tempo, é fundamental gerar conhecimento em cada etapa do processo, capacitando o produtor/empreendedor para a comercialização. Para os produtores, é preciso reduzir a informalidade, construir diferencial de mercado (agregar valor ao produto) e oferecer preços competitivos. Por outro lado, o comprador precisa respeitar as características, especificações e condições de oferta dos produtos.

 

  1. Financiamento

No País, há várias linhas de financiamento para a produção agropecuária sustentável (como Pronaf e Programa ABC), mas ainda há limitação para que essas informações cheguem aos produtores. Além disso, é difícil para os produtores amazônicos se enquadrarem nas exigências do financiador, principalmente devido à regularização fundiária precária da região. Na falta de acesso ao crédito oficial, há relações não oficiais de crédito com taxas exorbitantes. Por conta disso, existe a oportunidade de desenvolver cooperativas de créditos e para o uso de crédito privado. Organizações de microcrédito e outras alternativas de financiamento podem ajudar a viabilizar projetos de menor escala com o olhar da realidade local.

 

  1. Assistência técnica

Uma mudança no tipo de trabalho realizado pelo serviço de assistência técnica e extensão rural (Ater), que vá em direção ao desafio de implantar uma cadeia de valor sustentável na Amazônia, é um desafio que precisa de garantia de investimento. Para tanto, se faz necessário contar com equipe com conhecimento e experiência na realidade local e incorporar temáticas que tratem da conservação. A assistência técnica precisa ter um plano de uso das propriedades e assistência jurídica e de gestão de negócio (como precificação), para cooperativas e associações, possibilitando parcerias e intercâmbio de experiências. Essa nova Ater florestal precisa aliar o saber científico, técnico e local. O fortalecimento da escola familiar rural para qualificação profissional pode ajudar na formação de multiplicadores locais.

 

  1. Questões regulatórias

Há uma dificuldade em conseguir adequar a legislação para grupos produtivos amazônicos, pois os marcos regulatórios são voltados para o mercado tradicional. É preciso adequá-los para os negócios sustentáveis, com regulações mais conectadas com a realidade. Já há diálogos multissetoriais nesse sentido, mas a participação de atores mais próximos dos produtores (como ONGs e associações) é difícil, em função de logística e custos para comparecer a reuniões. Viabilizar essa participação, por meio de apoios mútuos ou rodízio, por exemplo, pode ser um caminho, assim como fortalecer o diálogo entre as instituições de apoio à agricultura familiar para influenciar nas políticas públicas. Antes de tudo isso, porém, é preciso capacitar os produtores, organizando as informações regulatórias em guias e cartilhas, aumentando a autonomia dos produtores e diminuindo o tempo de regularização e registro de atividades que tenham boas práticas.

 

Artigos sobre negócios sustentáveis na Amazônia

O ciclo de oficinas gerou uma série de 3 artigos sobre o tema, escritos pela jornalista Maura Campanilli. Confira abaixo:

Oficina 1
Negócios sustentáveis precisam nascer com esse propósito
A intencionalidade na sustentabilidade permite que empreendimentos possam corrigir seus rumos e se
aperfeiçoar ao longo do caminho

Oficina 2
Futuro de negócios sustentáveis na Amazônia depende de ações que precisam começar agora
Criar ambiente que favoreça atuação em rede e capacitação para jovens empreender estão entre os desafios urgentes.

Oficina 3
Ambiente para negócios sustentáveis precisa ser fomentado na Amazônia
Ações de impacto em áreas como formação de capital social e humano, inovação e financiamento estão entre as prioridades.