Com foco em restaurar 12 milhões de hectares, pacote sugere nova governança, frentes de trabalho e uso de recursos do Plano Safra e de bancos públicos para destravar um potencial de R$ 776,5 bilhões em receita e forte impacto climático

Em meio às articulações para as eleições de 2026, o debate ambiental ganha novos contornos com a divulgação de propostas do Instituto Escolhas voltadas à recuperação produtiva das florestas brasileiras. A organização apresentou um conjunto de cinco medidas que podem transformar 12 milhões de hectares hoje desmatados em fonte de emprego, renda, alimento e redução de emissões de gases de efeito estufa.
A meta não é nova: trata-se do compromisso assumido pelo Brasil no Acordo de Paris, em 2015, de recuperar 12 milhões de hectares de de vegetação nativa, o que exige a articulação de ações, recursos e políticas públicas para que essa promessa saia do papel nas próximas décadas.
O que o Instituto coloca em pauta agora é como tirar essa promessa do papel e, com que escala de investimento e coordenação política, isso precisa acontecer. Segundo o estudo, a recuperação produtiva dos 12 milhões de hectares tem potencial para:
- Criar 5 milhões de empregos;
- Gerar R$ 776,5 bilhões em receita líquida;
- Produzir 1 bilhão de metros cúbicos de madeira;
- Garantir 156 milhões de toneladas de alimentos;
- Remover 4,3 bilhões de toneladas de CO₂ da atmosfera.
Para que esses números deixem de ser projeções otimistas e se tornem política de Estado, o instituto estima que serão necessários R$ 228 bilhões em investimentos.
Falta coordenação política, sobra potencial econômico
Segundo a análise do instituto, hoje faltam incentivos econômicos, capacidade institucional e, principalmente, coordenação política para que o compromisso assumido na arena internacional seja cumprido internamente. A avaliação é que, sem uma ação planejada de governo, o país corre o risco de assistir à deterioração contínua das áreas com potencial de recuperação, perdendo oportunidades econômicas e de liderança climática.
“Nenhum governo, sozinho, dará conta da escala de restauração florestal que o Brasil precisa. A iniciativa privada tem capital e presença territorial que podem acelerar esse processo. Com a Meta Florestal da Vale, estamos investindo em conhecimento aplicado e em sistemas agroflorestais e outros modelos produtivos passíveis de serem replicados por diferentes atores, atuando como uma força complementar para ajudar a transformar compromissos em resultados econômicos, sociais e ambientais positivos”, comenta Juliana Vilhena, gerente de Estratégia, Gestão e Impacto no Fundo Vale
Cinco medidas centrais para destravar a restauração florestal
O documento elenca cinco ações que combinam mudanças institucionais, direcionamento de crédito e políticas de emprego:
1. Criação de uma Autoridade Nacional da Restauração Florestal
A principal proposta é instituir uma Autoridade Nacional da Restauração Florestal, órgão vinculado diretamente à Presidência da República. Essa autoridade teria poderes e recursos para: coordenar ações de ministérios, estados, municípios, bancos públicos e setor privado; alinhar políticas de clima, agricultura, desenvolvimento regional e infraestrutura; acompanhar metas, monitorar a execução dos projetos e evitar a dispersão de esforços.
O raciocínio é que, sem um comando central forte, programas de restauração seguem fragmentados, com baixa escala e pouco impacto.
2. Foco também nas terras áridas e em desertificação
Outra medida propõe incluir a recuperação de terras áridas e de regiões em processo de desertificação entre as prioridades do governo federal. Isso atinge diretamente áreas já pressionadas pelas mudanças climáticas, especialmente no Semiárido brasileiro, onde: a degradação do solo reduz a produtividade; comunidades rurais perdem renda; aumenta a vulnerabilidade a secas extremas.
Ao integrar essas regiões à agenda de recuperação, a proposta busca combinar restauração ambiental com segurança hídrica e social.
3. Frentes de trabalho para restauração, com qualificação profissional
O Instituto também sugere a formação de frentes de trabalho voltadas à recuperação florestal, com: treinamento e capacitação da mão de obra; incentivo à contratação de trabalhadores locais; integração com políticas de emprego e renda.
A ideia é transformar a restauração em um motor de inclusão produtiva, sobretudo em áreas rurais com pouco dinamismo econômico. Em vez de apenas reflorestar, o foco é criar uma nova cadeia de valor ligada à produção madeireira sustentável, agroflorestas e sistemas produtivos de base florestal.
4. Destinar 20% do Plano Safra para recuperação de áreas desmatadas
O Plano Safra é hoje a principal fonte de crédito para o agronegócio. Direcionar parte desses recursos significaria: estimular produtores a investir em recuperação produtiva (como sistemas agroflorestais, silvipastoris e manejo sustentável); tornar a restauração um negócio financeiramente viável, não apenas um custo ambiental; alinhar a política agrícola às metas climáticas assumidas pelo país.
5. Reservar 10% do crédito dos grandes bancos públicos para restauração
A quinta medida propõe que 10% da programação anual de financiamento de quatro grandes instituições financeiras públicas, como o BNDES, Banco do Nordeste, Banco da Amazônia e Banco do Brasil, sejam destinados à recuperação de áreas desmatadas.
Esse apoio viria com: juros favorecidos; recursos não reembolsáveis (subsídios e fundos de apoio); linhas específicas para projetos de restauração produtiva.
Ao combinar crédito barato com incentivos diretos, o objetivo é destravar investimentos privados em larga escala e atrair produtores, empresas e cooperativas para a agenda da restauração.
O pacote de medidas se insere na série “Eleições 2026”, em que a organização apresenta propostas para alimentar o debate público em ano eleitoral. Conheça essa e outras propostas aqui.