Evento reuniu governos, bancos de desenvolvimento, instituições financeiras, setor privado e organismos internacionais para discutir mecanismos capazes de ampliar investimentos em territórios rurais da América Latina e do Caribe.

A transição para sistemas alimentares sustentáveis depende de uma série de fatores, como acesso justo a mercados e financiamento adequado. Sem crédito compatível com os ciclos agrícolas, garantias ajustadas à realidade dos produtores e instrumentos capazes de absorver riscos climáticos, os projetos permanecem fragilizados. Foi a partir desse desafio que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) realizou, nos dias 18 e 19 de agosto, em Santiago, no Chile, o evento “Investindo em Sistemas Agroalimentares na América Latina e no Caribe”.
Em formato híbrido, o encontro promoveu um diálogo de alto nível sobre como ampliar e qualificar os investimentos destinados à transformação dos sistemas agroalimentares. A agenda reuniu governos, mecanismos de integração regional, agências de cooperação internacional, bancos de desenvolvimento nacionais e regionais, instituições financeiras, sociedade civil, setor privado e organismos multilaterais. O objetivo foi avançar em uma abordagem mais ampla, capaz de conectar inclusão financeira e resiliência territorial.
Nesse contexto, o painel “O Papel Fundamental do Setor Privado, Bancos Comerciais e Fundos de Impacto no Fortalecimento da Resiliência dos Sistemas Agroalimentares” reuniu Mariana Escobar (Corporação Financeira Internacional – IFC); Juliana Vilhena (Fundo Vale); Leonardo Cubillos (BBVA); Daniel Brandão (Vox Capital); Andrés Felipe Herreño e Anass Khallouqi (FAO-CFI); e Pilar Jiménez (Iniciativa para el Comercio Sostenible – IDH). A discussão abordou como contribuir para reduzir as lacunas de financiamento nos sistemas agroalimentares rurais, com destaque para instrumentos como financiamento de cadeias de valor, crédito verde, investimento de impacto, seguros, garantias e capital paciente, além das condições necessárias para ampliar a participação privada e fortalecer a resiliência dos territórios.
Uma região estratégica, mas subfinanciada
A América Latina e o Caribe ocupam posição central na produção mundial de alimentos e concentram importantes oportunidades de desenvolvimento sustentável, mas os sistemas agroalimentares da região ainda recebem menos de 10% do financiamento global destinado ao setor. Os recursos disponíveis, além de insuficientes, permanecem fragmentados e nem sempre chegam aos agricultores familiares, às pequenas empresas, às cooperativas e às comunidades rurais que mais precisam investir em adaptação climática, inovação e aumento da produtividade.
A FAO propõe, portanto, uma mudança de perspectiva: não basta criar novas linhas de crédito. É necessário construir ecossistemas financeiros territoriais, com caminhos diferenciados para inclusão, financiamento e investimento, considerando as características econômicas, sociais, ambientais e climáticas de cada região.
Do microfinanciamento à estruturação de ecossistemas
A discussão destacou a necessidade de adaptar os produtos financeiros aos ciclos agrícolas, à informalidade de parte da produção, à ausência de garantias tradicionais e à vulnerabilidade climática dos territórios rurais. Nesse contexto, a inclusão financeira não se resume à abertura de contas ou à oferta de microcréditos. Ela envolve a construção de relações de confiança, assistência técnica, educação financeira e produtos compatíveis com os fluxos de renda de cada atividade.
A programação incorporou uma reflexão sobre as Ollas Comunes, cozinhas comunitárias do Peru. A experiência foi apresentada como um exemplo de iniciativa de alto valor social e comunitário que, frequentemente, não se enquadra nos modelos tradicionais de financiamento. O desafio colaborativo buscou estimular novas ideias e instrumentos para apoiar atividades que geram impacto coletivo, ainda que não apresentem os formatos convencionais de um negócio bancável.
Cooperativas e MPMEs como pontes para o crédito
Outro eixo do encontro foi o fortalecimento das capacidades organizacionais de cooperativas, associações, micro, pequenas e médias empresas e organizações de produtores.
A organização coletiva pode ampliar a capacidade de negociação, agregar demanda, reduzir custos de transação e melhorar o acesso a diferentes instrumentos financeiros. Também pode ajudar a transformar unidades produtivas dispersas, muitas vezes com baixa capacidade de gestão, em estruturas mais preparadas para dialogar com bancos, investidores e compradores.
Nesse processo, a formalização aparece como um meio — e não como um fim. Mais do que cumprir exigências burocráticas, organizações rurais fortalecidas podem estruturar projeto, demonstrar capacidade de pagamento, acessar assistência técnica e direcionar os investimentos para sistemas agroalimentares mais resilientes.
O papel estratégico dos bancos de desenvolvimento
Os bancos nacionais de desenvolvimento foram apresentados como atores fundamentais para superar a fragmentação do financiamento rural. Entre os instrumentos discutidos estiveram linhas de crédito especializadas, fundos de segundo piso, garantias, assistência técnica, financiamento concessional, produtos financeiros verdes, seguros, soluções digitais e mecanismos de cofinanciamento.
A atuação dessas instituições pode ser decisiva para reduzir riscos e atrair bancos comerciais, cooperativas, instituições financeiras internacionais e fundos climáticos. Em vez de operar de forma isolada, os diferentes agentes podem compartilhar riscos, combinar recursos e criar condições para que projetos de impacto econômico, social e ambiental se tornem financiáveis.
Territórios preparados para receber investimentos
No segundo dia, a agenda avançou para a consolidação de ecossistemas financeiros inclusivos e para a participação do setor privado, dos bancos comerciais e dos fundos de impacto.
A experiência da iniciativa regional Mão na Mão, da FAO, serviu de base para a apresentação de casos relacionados ao Caribe, ao Corredor Seco da América Central e à Amazônia. As experiências demonstraram que a capacidade de um território atrair investimentos depende de fatores que vão muito além da existência de um instrumento financeiro.
Informações confiáveis, planejamento estratégico, clareza sobre a demanda, identificação de riscos, governança e uma carteira de projetos bem estruturada são elementos essenciais para transformar potencial produtivo em oportunidade de investimento.
Capital privado e finanças de impacto

O setor privado, os bancos comerciais e os fundos de impacto também foram colocados no centro da discussão. Entre os instrumentos avaliados estiveram o financiamento de cadeias de valor, os empréstimos verdes, os investimentos de impacto, os seguros, as garantias e o capital paciente — recursos com horizonte de retorno mais longo e maior tolerância às características específicas de determinados negócios, como longos prazos de retorno e dificuldade em apresentar garantias.
Para ampliar a participação privada, é necessário reduzir a percepção de risco. Isso exige informações de qualidade, agregação de demanda, padrões de sustentabilidade, rastreabilidade, assistência técnica e parcerias com o poder público e instituições multilaterais.
Além de empréstimos ou investimentos diretos, o setor empresarial pode colaborar com contratos de fornecimento mais robustos e compras programadas. Além de apoio à gestão e assistência técnica para fortalecer cadeias produtivas e ampliar a inserção de pequenos produtores nos mercados.
“Essa coordenação é particularmente importante em áreas onde a renda é sazonal, a infraestrutura é limitada e os efeitos climáticos aumentam a incerteza sobre a produção. O apoio precisa ser desenhado não apenas para responder a uma necessidade imediata, mas para sustentar a transformação de longo prazo”, afirma Juliana Vilhena, gerente de Estratégia, Gestão e Impacto do Fundo Vale, que esteve no evento.
Blended Finance e o papel do capital catalítico como instrumento de transformação
A mobilização de recursos climáticos foi outro ponto central do encontro. A FAO destacou a necessidade de combinar capital público, privado e concessional por meio de mecanismos inovadores, como mercados de carbono, blended finance e garantias.
“Uma das principais mensagens da discussão foi que enfrentar os desafios climáticos, de biodiversidade e de desenvolvimento rural exige um verdadeiro “continuum de capital”, em que diferentes fontes de recursos e instrumentos financeiros atuam de forma complementar ao longo da trajetória dos negócios. Nesse contexto, instrumentos de capital catalítico, como mecanismos de first-loss, garantias e compartilhamento de riscos, podem desempenhar um papel fundamental ao reduzir barreiras, destravar financiamento e atrair novos investidores para setores essenciais à transição para uma economia mais resiliente e regenerativa”, resume Juliana Vilhena.
A Meta Florestal 2030 da Vale é um exemplo de iniciativa do setor privado neste arranjo: inclui apoio a negócios que combinam recuperação de áreas e geração de renda em sistemas agroflorestais biodiversos, silvicultura diversificada e consórcios simplificados — em parceria com agricultores familiares e organizações locais. Para viabilizar a recuperação em escala, a estratégia combina apoio financeiro, com capital catalítico e estruturação de mecanismos de blended finance; e suporte não financeiro, por meio de assistência técnica, capacitações, acesso a mercados e fortalecimento de gestão e governança.