24/07/26

Iniciativa desenvolvida pela OPAN, com apoio do ICMBio e Fundo Vale, fortalece a governança de associações das reservas extrativistas Ituxi e Médio Purus, no Amazonas. Com o crescimento de 76% do capital de giro na cadeia de castanha-do-brasil e aumento expressivo nas vendas, famílias ampliaram a autonomia financeira

Foto: Adriano Gambarini 

O fundo de capital de giro das famílias extrativistas da castanha-do-brasil na Reserva Extrativista (Resex) Ituxi, em Lábrea (AM), cresceu 76% ao longo da implementação da iniciativa “Fortalecimento dos Arranjos Comerciais Coletivos das Cadeias da Castanha-do-Brasil e do Açaí na Resex Ituxi”, executado pela OPAN (Operação Amazônia Nativa) com apoio do Fundo Vale, entre 2023 e 2025. No acumulado desde 2021, o salto é ainda mais expressivo: o saldo passou de R$ 8,2 mil para mais de R$ 90 mil, alta de quase 1.000%. O projeto é parte do programa Sustenta.Bio, uma parceria com o ICMBio.

Os recursos são administrados pela Associação dos Produtores Indígenas da Terra Indígena Caititu (APITC) com apoio técnico da OPAN.O fundo paga as famílias no ato da entrega da produção, evitando que recorram a atravessadores, e acumula saldo ao longo das safras. A reserva financeira funciona como poupança coletiva: garante capital para a primeira rodada de compras no início de cada safra, amortece a queda de renda familiar em períodos de quebra de produção e reduz a dependência de crédito com comerciantes locais durante a entressafra.

Outro objetivo da iniciativa era ampliar a participação das comunidades nos arranjos. O número de famílias passou de 17, em 2021, para 35 em 2025 — crescimento de 106% desde a criação do coletivo. Considerando o período de execução do projeto, o aumento foi de 13%, superando a meta inicial de expansão de 10%. As famílias estão distribuídas em cerca de 15 comunidades da Resex Ituxi.

Impacto positivo na comercialização

Junto com a base social, cresceu também a produção comercializada: de aproximadamente 1,4 tonelada de castanha em 2021 para 8,5 toneladas em 2024, quase seis vezes mais. Esse crescimento foi interrompido pelas secas severas que atingiram a Amazônia em 2023 e 2024. Elas comprometeram a floração e a coleta na safra seguinte e fizeram o volume cair para cerca de 300 kg em 2025 (queda de 96% frente ao pico de 2024). O saldo acumulado nas safras anteriores compensou a quebra, mostrando que o arranjo passou a operar como poupança coletiva de longo prazo.

“Os resultados apresentados pela OPAN são animadores. Nosso objetivo é fortalecer as cadeias da sociobiodiversidade como estratégia de proteger a floresta, promovendo o desenvolvimento socioeconômico das comunidades tradicionais. O crescimento do fundo de giro e da comercialização são indicadores de que o arranjo comunitário está ganhando maturidade em gestão, o que se converte em maior autonomia financeira das famílias nos períodos críticos”, avalia Márcia Soares, gerente Amazônia e Parcerias do Fundo Vale.

Pirarucu em expansão com equidade de gênero

Foto: ATAMP

O apoio do Fundo Vale à OPAN incluiu ainda o fortalecimento da cadeia do pirarucu de manejo sustentável na Resex Médio Purus, território vizinho à Resex Ituxi. A atividade ganhou tração em 2024 com a pescaria de 1.605 peixes, que viabilizou a primeira operação em escala comercial da Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas do Médio Purus (ATAMP). A cota de manejo, de até 30% dos peixes adultos contados nos lagos, foi respeitada em toda a operação.

A produção foi comercializada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), e a renda foi dividida entre homens e mulheres — arranjo apontado pelo projeto como mecanismo de redução de desigualdades.

Cadeia do açaí em construção

Foto: Valdeson Vilaça

O açaí é a segunda cadeia apoiada na Resex Ituxi, ao lado da castanha-do-Brasil, e segue como frente em construção. O número de famílias envolvidas passou de 14, em 2021, para 12 em 2025, em queda de 14%. O desempenho reflete três fatores combinados: a oscilação típica de uma cadeia jovem, a concorrência com atravessadores que pagam menos em troca de pagamento imediato e a sobreposição do período de coleta com o da castanha, reduzindo a mão de obra disponível na comunidade. As secas severas de 2023 e 2024 agravaram o quadro: os frutos vieram murchos, com menor polpa e sabor prejudicado, provocando uma queda de 65% na produção em 2025.

O arranjo coletivo do açaí também opera com um fundo de capital de giro, que reserva parte dos recursos de uma safra para outra, garantindo capital para a primeira rodada de compras. No entanto, por ser um produto mais perecível que a castanha, o açaí exige comercialização rápida — o que deixa menos margem para o fundo acumular saldo entre safras, funcionando mais como caixa de pagamento imediato do que como poupança coletiva de longo prazo.

Lições aprendidas

Diogo Giroto em uma atividade de capacitação. Foto: Talita Oliveira

A implementação do projeto durante três anos mostra que não existe modelo único para a Amazônia: cada cadeia produtiva tem seu tempo, cada comunidade tem sua forma de organização, e cada território tem particularidades.

“O projeto consolida uma estratégia de fortalecimento das cadeias produtivas para garantir a permanência das populações nas unidades de conservação. Os dados reunidos evidenciam a importância dessas áreas para a produção de alimentos de qualidade, que abastecem mercados locais e chegam à exportação. Além disso, fortalecem a atuação política dos extrativistas na defesa desses territórios””, conclui Diogo Giroto, coordenador do Programa Amazonas da OPAN.

Sobre o Sustenta.Bio

Fruto de uma parceria entre o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Fundo Vale, o programa busca alavancar cadeias da sociobiodiversidade na Amazônia, contribuindo para o uso sustentável de produtos e serviços da floresta e para o fortalecimento da pesca artesanal em Unidades de Conservação (UCs) de uso sustentável e Terras Indígenas.

O foco é fortalecer e apoiar organizações, coletivos, movimentos e associações extrativistas e desenvolver soluções de mercado para esses produtos. Entre 2023 e 2026 foram investidos recursos da ordem de R$ 24 milhões para dinamizar cadeias de valor, por meio de sete projetos, envolvendo seis organizações correalizadoras: OPAN, Idesam, Asproc, Instituto Mamirauá, IFT e Amoreri.

As UCs são essenciais para a proteção da biodiversidade. Ao fortalecer o trabalho das comunidades que utilizam a floresta de forma sustentável em seus territórios, o país contribui para a valorização da cultura dos povos tradicionais e dos produtos da sociobiodiversidade que vêm despertando interesse crescente nos mercados nacional e internacional.

Saiba mais em https://www.fundovale.org/sustenta-bio/