27/04/26

Parceria multissetorial entre Vale, Fundo Vale, FAS, BNDES, IDIS e poder público local beneficia comunidade a até três dias de barco do atendimento mais próximo 

Fotos: Lucas Bonny 

Na ponta de um rio distante mais de 1.200 quilômetros de Manaus, quase divisa com o Acre, uma construção recém-erguida à beira d’água se tornou um dos endereços mais importantes da região. Localizado na comunidade do Ubim, no município de Eirunepé (AM), o Ponto de Atendimento à Saúde “José Rodrigues” foi inaugurado no dia 9 de abril, na Reserva Extrativista (Resex) do Rio Gregório, e deve se tornar referência local em Atenção Primária à Saúde para mais de 30 comunidades ribeirinhas, beneficiando mais de 990 pessoas, sendo 59 moradores do Ubim e cerca de 930 habitantes de outras comunidades da Resex. Os atendimentos começaram no dia da inauguração. 

A iniciativa integra o projeto SUS na Floresta, desenvolvido pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS) por meio do Programa Juntos Contra a Pobreza, financiado pela Vale e pelo BNDES, sob gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), em parceria com a Prefeitura de Eirunepé, a Secretaria Municipal de Saúde e a Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas.  

A estrutura foi concebida como uma solução adaptada à realidade local, com foco no apoio às equipes de saúde, na realização de atendimentos presenciais e no uso da telessaúde, atuando de forma complementar e integrada à rede formal do SUS. O investimento total para implantação da infraestrutura de apoio à saúde e suporte às ações de telessaúde foi de R$ 2 milhões. 

“Ao articular saúde, proteção social e sociobioeconomia ajudamos a criar condições para que as famílias tenham dignidade, prosperidade e permaneçam em seus territórios, com acesso a direitos e melhores perspectivas de futuro. Precisamos proteger as pessoas que protegem a Amazônia”, diz Márcia Soares, gerente de Amazônia e Parcerias do Fundo Vale. 

O ponto de atendimento funciona com uma técnica de enfermagem presente em tempo integral no Ubim, apoiada por Agentes Comunitários de Saúde que atuam nas comunidades da Resex. Essa equipe garante o cuidado de rotina, procedimentos básicos, monitoramento de doenças crônicas e organização dos teleatendimentos. Médico, enfermeiro e dentista vão à região em missões periódicas, permanecendo cerca de 15 dias a cada dois meses. No intervalo entre as missões, a telessaúde mantém o seguimento dos casos e as consultas à distância. 

No curto prazo, espera-se ampliar o acesso à Atenção Primária, reduzir longas viagens e garantir continuidade do cuidado principalmente para gestantes, crianças e pessoas com doenças crônicas. Em paralelo, o projeto se articula a outras ações do Programa Juntos Contra a Pobreza,  como educação, geração de renda pela sociobioeconomia, segurança alimentar e acesso a políticas públicas,  para apoiar a saída de famílias da extrema pobreza na região. 

Barreira logística 

Na Resex Rio Gregório, a primeira barreira está no mapa. Para chegar à sede municipal de Eirunepé, os moradores dependem exclusivamente do transporte fluvial. Saindo da comunidade do Ubim, o trajeto até a cidade pode levar em média 8 horas em lancha com motor potente, em condições normais de cheia. Nas embarcações regionais usadas pela maior parte da população, a viagem pode durar até três dias, tempo que aumenta em períodos de estiagem severa, quando bancos de areia, troncos e trechos rasos tornam a navegação mais lenta, imprevisível e, em alguns casos, impossível. 

O caminho até o posto de saúde também pesa no bolso. O custo do deslocamento, somado às despesas com alimentação e eventual pernoite na cidade, representa um gasto elevado para famílias cuja renda vem, sobretudo, da mandioca, coleta de produtos florestais e programas específicos da região. Na prática, consultas e exames considerados “não urgentes” vão sendo adiados até o limite. 

Retrato da saúde às margens do rio  

Antes da inauguração do novo ponto de atendimento, o cuidado em saúde na Resex Rio Gregório dependia principalmente de equipes itinerantes da Secretaria Municipal de Saúde de Eirunepé, com destaque para a Unidade Básica de Saúde Fluvial que navega periodicamente pela região. Embora essenciais, essas ações costumavam ocorrer, em média, apenas uma vez a cada semestre, o que dificultava o acompanhamento contínuo. 

Um levantamento feito pelas equipes do programa Juntos Contra a Pobreza e pela FAS identificou três frentes críticas: 

Pré-natal: início tardio e número insuficiente de consultas, com aproximadamente 40% das gestantes fazendo o acompanhamento considerado adequado. Barreiras geográficas, limitações de transporte e a sazonalidade dos rios dificultavam o acesso oportuno ao serviço, comprometendo a identificação precoce de riscos na gestação. 

Saúde da criança: acompanhamento irregular do crescimento e desenvolvimento, sobretudo na primeira infância, fase em que consultas de rotina e vacinas em dia são decisivas para prevenir agravos. 

Doenças crônicas: presença de casos de hipertensão, com cerca de 29 pessoas diagnosticadas nas comunidades, enfrentando dificuldades para controle contínuo e acesso regular a medicamentos. 

Infraestrutura para atendimento presencial e remoto 

O Ponto de Atendimento à Saúde foi concebido como um polo de telessaúde e Atenção Primária à Saúde ajustado às especificidades da Amazônia. A unidade conta com um consultório multiprofissional, preparado tanto para consultas presenciais quanto para teleatendimentos. Inclui dispensação de medicamentos da farmácia básica, sala de triagem para cadastro, escuta qualificada, classificação de risco e organização do fluxo de atendimento. Além disso, há uma antessala para espera e circulação de usuários, um consultório odontológico equipado para serviços básicos e pequenos procedimentos cirúrgicos, um dormitório com banheiro para acomodação de profissionais de saúde durante as missões e um banheiro externo destinado ao público atendido. 

Em termos de infraestrutura tecnológica, a unidade dispõe de conexão à internet e equipamentos específicos para telemedicina, permitindo a realização de teleconsultas e teleconsultorias com especialistas. A conexão viabiliza que profissionais baseados na sede municipal de Eirunepé apoiem, à distância, o atendimento às comunidades, ampliando a capacidade de resolução no próprio território. 

Juntos Contra a Pobreza: resposta integrada aos desafios da pobreza extrema 

O Juntos Contra a Pobreza é um programa criado pela Vale que busca apoiar a retirada de 500 mil pessoas da extrema pobreza numa visão multidimensional do problema. Utiliza a metodologia de Acompanhamento Familiar Multidimensional, reconhecida pela Universidade de Oxford, para identificar e superar privações em renda, educação, saúde, nutrição e infraestrutura. Para testar as soluções mais adequadas para alcançar a escala do compromisso, a Vale está implementando 20 projetos pilotos em diferentes contextos, em áreas urbanas, de periferias e de florestas, em cinco estados (AM, PA, MA, RJ e MG).   

Na Resex do Rio Gregório, o projeto tem a parceria do Fundo Vale e iniciou em 2024 com cerca de 247 famílias. A partir de um diagnóstico inicial, foi construído um plano de ação personalizado que inclui o acesso das famílias a políticas públicas essenciais, como o Cadastro Único e o Bolsa Família, em parceria com o poder público e organizações da sociedade civil.