27/05/26

Painel com Fundo Vale mostra que democratizar o investimento passa por novos modelos de risco, retorno e tempo, além da articulação entre fundos filantrópicos, venture capital, microcrédito digital e até peer-to-peer lending para escalar soluções  

O Impacta Mais, Fórum do Ecossistema Brasileiro de Investimentos de Negócios de Impacto, chegou à sua sexta e maior edição, consolidando-se como o espaço estratégico para o fortalecimento do ecossistema de impacto.  Realizado nos dias 20 e 21 de maio, em São Paulo, o encontro reuniu investidores, empresas, governos, institutos, fundações, empreendedores, universidades e lideranças territoriais, totalizando cerca de 1,7 mil inscritos em dois dias de conexões qualificadas e construção de caminhos para soluções reais aos desafios socioambientais e produtivos do país. 

Democratizando o Investimento de Impacto 

O painel “Democratizando o Investimento de Impacto” trouxe uma provocação central: qual é o sentido de falar em impacto se o capital continua operando sob as mesmas regras do mercado tradicional? 

Mediado por Juliana Telles (Impact Hub), o encontro reuniu Márcia Soares (Fundo Vale), Luiza Diógenes (Vox Capital), Alessandra de França (Banco Pérola) e Marcos Pugotti (Associação Emprego, Investimento e Causa) para mostrar que democratizar não é apenas distribuir recursos, mas mudar a lógica de como eles circulam. Os painelistas debateram as barreiras centrais à democratização: falta de educação financeira e de impacto, dificuldade de escala em negócios de bioeconomia e restauração de longo prazo, ausência de coordenação e centralidade de políticas públicas e o “gap” entre consciência e ação na hora de tirar dinheiro de investimentos seguros para destinar a empreendedores de impacto.  

“Quando a gente fala em democratizar, a gente pensa nos diferentes públicos que estão trabalhando nessa agenda de conservação e de restauração. Entendemos como parte da democratização, desde a formação de associações e cooperativas, lá na base das cadeias produtivas que mantém a floresta em pé, até organizações dinamizadoras e negócios em escala”, pontuou Márcia Soares, gerente de Amazônia e Parcerias do Fundo Vale.  

Soluções inovadoras 

O fio condutor do debate foi a ideia de que não basta copiar a lógica do mercado tradicional: é preciso desenhar instrumentos e relações alinhados a um propósito de transformação. Como sintetizou Márcia Soares, o desafio é que, se mantivermos as regras usuais, estaremos apenas dizendo que fazemos impacto, mas seguindo as mesmas regras do mercado tradicional em negócios que exigem outra lógica de risco, retorno e tempo.  

Entre os caminhos viáveis para a questão, a Vox falou sobre sua expansão de atuação com venture capital para fundos de renda fixa acessíveis a partir de R$ 100, sem abrir mão da diversidade de empreendedores. O Banco Pérola se posiciona como uma ponte digital entre investidores de impacto e microempreendedores que nunca passaram na triagem do banco tradicional. A Associação Emprego, Investimento e Causa criou um sistema de empréstimo coletivo (peer-to-peer) a partir de R$ 10 como ferramenta para formar o “investidor-cidadão”. Já o Fundo Vale se consolidou como um “laboratório” que usa capital filantrópico flexível para destravar capital público, de mercado e concessional em favor da floresta e do clima. 

A “arte do encontro” como motor da economia de impacto 

Ao longo de dois dias, o Impacta Mais 2026 celebrou um ecossistema de impacto em expansão. Entre hubs temáticos, palcos simultâneos, feira de negócios, rodadas de conexão, espaços territoriais, premiação e ambientes de experimentação, o evento mostrou a força de uma agenda apoiada pela Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto, recentemente renovada, e pelo protagonismo da sociedade civil. 

A programação foi organizada em sete hubs temáticos, entre eles o de Cadeias Sustentáveis e Economia Circular, patrocinado pelo Fundo Vale, que discutiu soluções para tornar cadeias produtivas mais eficientes, responsáveis e regenerativas.  

A “arte do encontro” foi reafirmada como motor da economia de impacto e o recado foi direto: cabe a essa comunidade fazer do país uma referência em um modelo econômico que seja bom para as pessoas e para o meio ambiente, construindo hoje os resultados que, daqui a 20 anos, queremos olhar com orgulho. 

“Apesar de todos os desafios que enfrentamos, hoje temos um ecossistema maior e mais abrangente. Só este evento já é um sinal dessa expansão: são 1.700 inscrições, mais do que no ano passado e em todas as edições anteriores do Impacta Mais”, celebrou Paulo Handl, cofundador e sócio do Impact Hub São Paulo. “Temos uma Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto, renovada, que se consolidou como política pública e estratégia nacional, dando escala e força para o campo”, ressaltou.