Com participação de Geoffrey Hawtin, vencedor do World Food Prize 2024, encontro reforçou que biodiversidade agrícola é ativo estratégico para a segurança alimentar

No dia 23 de junho, Piracicaba (SP) recebeu a primeira edição brasileira do Fórum de Agricultura Regenerativa – Acelerando a Transição, um dos mais relevantes encontros internacionais dedicados à transformação dos sistemas alimentares e produtivos. O evento reuniu ciência, produtores, investidores e lideranças empresariais para encontrar convergências de como escalar soluções que regeneram solos, protegem a biodiversidade e aumentam a resiliência climática sem perder produtividade. A participação especial do Dr. Geoffrey Hawtin, vencedor do World Food Prize 2024, o “Nobel da Agricultura”, reforçou o recado: biodiversidade agrícola é um ativo estratégico para a segurança alimentar e para a competitividade do agro. Outro eixo relevante foi o financiamento, tratado como ponte essencial entre intenção e escala.
Com apoio do Fundo Vale, o fórum foi promovido pelo Global Landscapes Forum (GLF), pela Sustainable Agriculture Network (SAN), pelo Imaflora e pelo CABI BioProtection Portal, com apoio do Café Orfeu e produção do Pecege. A escolha de Piracicaba, reconhecida por sua vocação em ciência agrícola e inovação, contribuiu para aproximar discussões globais de experiências brasileiras e para conectar diferentes elos da cadeia em torno de soluções aplicáveis no campo.
Ao longo do dia, a programação evidenciou uma mudança de fase no debate sobre agricultura regenerativa. Em vez de concentrar esforços em justificar a transição, os painéis e diálogos se voltaram para o ritmo e as condições necessárias para fazê-la acontecer com consistência, mensuração e viabilidade econômica.
O evento reuniu vozes do universo de investimentos e da economia verde, como Ricardo Abramovay, Talia Smith, Elizabeth Adu, além de representantes de organizações e empresas globais, para discutir como reduzir barreiras financeiras e acelerar a transição com instrumentos mais adequados ao risco e ao tempo da agricultura. O painel “Viabilizando a transição: Incentivos e financiamento para a agricultura regenerativa” contou com a participação de Juliana Vilhena, do Fundo Vale, ao lado de Saulo de Souza da Landscape Alliance, Alexandra Tuinstra da Root Capital, Talia Smith da Circular Bioeconomy Alliance e Phyllis R. Caldwell, investidora de impacto.
“A transição para a agricultura regenerativa exige um alinhamento de incentivos ao longo de toda a cadeia de valor, garantindo que o custo dessa mudança seja compatível com a realidade do produtor, ao mesmo tempo em que uma governança transparente seja assegurada para os financiadores”, destacou Juliana Vilhena ,gerente de Estratégia, Gestão e Impacto do Fundo Vale.
Biodiversidade como estratégia de resiliência
A presença de Geoffrey Hawtin deu densidade técnica e urgência ao tema ao reposicionar a biodiversidade agrícola como variável estrutural de resiliência. Com trajetória ligada a centros do CGIAR (Grupo Consultivo para Pesquisa Agrícola Internacional) e à organização internacional Crop Trust, ele trouxe à discussão o papel da diversidade genética das culturas para sustentar produtividade e estabilidade de cadeias sob condições mais severas de clima, pragas e estresse hídrico.
A leitura que ganhou força no evento foi que preservar biodiversidade não é apenas uma medida de conservação, mas uma estratégia de gestão de risco e continuidade de negócios, especialmente em sistemas produtivos expostos a extremos climáticos e volatilidade de insumos.
Soluções sustentáveis exigem suporte alinhado às realidades regionais
A coordenadora regional do GLF para América Latina e Caribe, Isabel Mesquita, destacou: “Diferentemente da agricultura convencional, que pode degradar os solos e depende de fertilizantes químicos e pesticidas, a agricultura regenerativa oferece uma abordagem mais sustentável, promovendo rotação de culturas, biocontrole e biofertilizantes”.
A discussão foi reforçada por especialistas como José Roberto Postali Parra, da ESALQ USP, referência em controle biológico, e por atores internacionais ligados ao CABI BioProtection Portal, com foco em desempenho agronômico, qualidade de implementação e condições de adoção. Entre os aprendizados mais citados esteve a importância de assistência técnica e de modelos de difusão que considerem realidade regional, calendário agrícola e previsibilidade de resultados, evitando que soluções promissoras fiquem restritas a projetos-piloto.
Colaboração “radical” para destravar a escala
A dimensão de colaboração apareceu não apenas como discurso, mas como método. O fórum promoveu experiências imersivas em Living Labs, sessões de networking e trocas orientadas por casos práticos, culminando na construção coletiva de um Manifesto de Colaboração Radical, pensado para orientar ações e compromissos de aceleração nos próximos anos. A mensagem subjacente foi que agricultura regenerativa não cresce com iniciativas isoladas. Ela precisa de coordenação entre produtores, ciência, empresas, finanças, políticas públicas e organizações comunitárias para destravar adoção em massa, evitar assimetrias de informação e reduzir fricções de implementação.
O protagonismo brasileiro na agenda regenerativa
Na avaliação do Imaflora, o evento reforçou o momento de transformação aplicada. Eduardo Trevisan, diretor de ESG e Certificações, afirmou: “Reunir no Brasil algumas das principais referências mundiais nesse tema cria uma oportunidade única de acelerar conexões, compartilhar experiências e transformar conhecimento em ação concreta no campo. O país tem competência técnica, biodiversidade e capacidade de inovação para ser protagonista dessa transformação”.
Liderança feminina e inclusão na transição
Em um ano reconhecido como o Ano Internacional da Mulher Agricultora na FAO ONU, o fórum conectou visibilidade com agenda prática, enfatizando que acesso a capital, assistência técnica, redes de comercialização e espaços de decisão são fatores que determinam a consistência e a permanência das mudanças no campo.
O debate sobre liderança feminina reuniu investidoras, executivas, produtoras e lideranças de diferentes territórios para discutir como inclusão e governança influenciam a capacidade de transformação dos sistemas alimentares. Participaram nomes como Elizabeth Adu, Phyllis R. Caldwell, Teresa Corção, Nancy Reyna López, Julia Bolton, da IFC, Isabela Pascoal Becker, da Daterra, e Juliana Vilhena, do Fundo Vale.
Métricas, carbono e rastreabilidade como infraestrutura de credibilidade
Como pano de fundo, as conversas refletiram a pressão global por transformação dos sistemas alimentares em um cenário de mudanças climáticas e exigências crescentes de mercado. Nesse contexto, o evento reforçou um aprendizado operacional que interessa diretamente ao ecossistema de impacto: a transição exige métricas e monitoramento proporcionais à realidade do campo.
Monitoramento de carbono, indicadores de solo e biodiversidade e rastreabilidade apareceram como infraestrutura de credibilidade e de acesso a mercados, mas também como possível gargalo se forem caros, complexos ou desconectados da rotina produtiva. A conclusão prática foi que bons sistemas de mensuração precisam ser robustos, mas viáveis, para gerar confiança sem inviabilizar a adoção.