Levantamento com mais de 100 empreendimentos participantes dos programas apoiados pelo Fundo Vale deu origem ao estudo “Estruturação de Negócios de Impacto e a Complexidade de Apoios” – um dos destaques das análises sobre os cinco primeiros anos da Teoria de Mudança 2030 da organização

O Fundo Vale está consolidando os resultados de cinco anos de atuação orientada por sua Teoria de Mudança 2030. As análises estão reunindo dados, evidências e histórias que ajudam a traduzir números em transformações concretas na vida das pessoas e nos territórios. Entre os destaques, está o estudo “Estruturação de Negócios de Impacto e a Complexidade de Apoios”, realizado em parceria com a Pipe.Social, por meio da Pipe.Labo, e a Manacá Tecnologias Sociais, e lançado durante o Impacta Mais, em 21 de junho, em São Paulo.
O estudo é fruto das reflexões geradas no acompanhamento do portfólio do Fundo a partir do GIMPACT, modelo próprio de gestão e mensuração de impacto desenvolvido para monitorar a Teoria da Mudança do Fundo Vale. Hoje, o GIMPACT acompanha mais de 880 negócios, que deram origem à amostra de 114 empreendimentos analisados em profundidade neste relatório. O foco foi especificamente o resultado: negócios de impacto socioambiental estruturados, gerando retorno financeiro e com potencial de escala.
“Este estudo nos ajuda a compreender melhor como diferentes tipos de apoio contribuem para a maturidade, a sustentabilidade financeira e o potencial de escala dessas soluções. Ao compartilhar esses aprendizados, queremos contribuir para o fortalecimento do ecossistema de impacto e oferecer subsídios para que financiadores, dinamizadores e organizações orientem suas decisões com foco em impacto, escala e sustentabilidade no longo prazo”, explica Márcia Soares, gerente de Amazônia e Parcerias do Fundo Vale.
Resultados
A partir do recorte estipulado, o estudo mostra que o ecossistema de impacto avança com um conjunto significativo de negócios formalizados, faturando e fortalecendo cadeias produtivas, mas ainda enfrenta desafios importantes para consolidar a sustentabilidade financeira. A análise indica que os avanços mais consistentes ocorrem quando diferentes tipos de apoio são combinados — articulando recursos não reembolsáveis, fortalecimento de gestão e governança, planejamento financeiro e conexões com mercados — em vez de ações pontuais focadas apenas em aporte de capital ou capacitações isoladas.
A amostragem de 114 empreendimentos indica que 89% dos negócios registraram faturamento no último ano, sendo 56% acima de R$ 100 mil e 33% até R$ 100 mil. Apesar disso, mais da metade não se considera financeiramente sustentável e 22% permanece dependente de recursos não reembolsáveis para manter as operações e investir em crescimento. Ao longo de sua trajetória, 68% já acessaram esse tipo de recurso, 42% tomaram empréstimos e 20% receberam aportes em troca de participação societária. Hoje, apenas 46% afirmam que o negócio “se paga”, a dependência de doações, prêmios e subvenções segue elevada e 33% dos empreendimentos estão em busca de investimentos acima de R$ 1 milhão.
Aprendizados para o ecossistema
O estudo reuniu 12 aprendizados importantes para o ecossistema de impacto. Entre eles, a constatação de que maturidade não é sinônimo de faturamento alto nem de “escala” nos moldes tradicionais de startup. A trajetória dos negócios analisados é marcada por ciclos: eles crescem em vendas, melhoram gestão e governança, ajustam o modelo e recomeçam. O crescimento aparece menos como consequência de uma base sólida e mais como aposta para o alcance de equilíbrio econômico , o que reforça a importância de apoios que combinem capital paciente, gestão financeira e governança, em vez de incentivos focados apenas em aumento de escala.
Outro grupo de aprendizados mostra que impacto, território e apoio caminham juntos, mas ainda com lacunas importantes. Em 87% dos casos, problema socioambiental e solução estão bem conectados, com geração de renda local e fortalecimento de cadeias da sociobiodiversidade, porém 69% dos negócios ainda não medem impacto de forma sistemática e enfrentam desafios para comunicar resultados e posicionar sua marca. O estudo indica que os programas geram legado mais consistente quando chegam na fase de estruturação do negócio, com pacotes de apoio que incluem gestão, governança e comunicação. Além disso, quando reconhecem o papel de negócios que já funcionam como hubs locais, ajudam a desenvolver outros empreendimentos em suas cadeias produtivas.
O que funciona na prática: combinações de apoio fazem mais diferença que ações isoladas
O estudo aponta que não é apenas o volume de recursos que determina o avanço dos negócios, mas o desenho do apoio. Nas entrevistas, empreendedores destacam que os resultados mais consistentes surgem quando capital e desenvolvimento de capacidades caminham juntos. A combinação de recursos não reembolsáveis com apoio em gestão, governança, planejamento financeiro e conexões com mercados aparece de forma recorrente como um diferencial para organizar a casa, testar modelos, ganhar tração e se preparar para investimentos maiores.
Programas que oferecem acompanhamento de médio e longo prazo, com mentoria próxima e espaço para ajustes ao longo do percurso, são percebidos como mais efetivos do que iniciativas pontuais, focadas apenas em capacitações rápidas ou repasses de recursos. O estudo também indica que apoios que consideram a realidade das cadeias produtivas, marcadas por sazonalidade, custos logísticos e necessidade de investimentos antecipados, tendem a ser mais aderentes quando trazem prazos mais longos, maior flexibilidade no uso dos recursos e alinhamento explícito com o impacto socioambiental no território.
Maturidade dos negócios
O levantamento mostra que metade dos negócios tem mais de cinco anos de existência e quase um quarto atua há mais de dez anos. Ainda assim, 40% se enxergam em fase de estruturação do negócio, 40% em crescimento e apenas 2% em escala. A análise qualitativa indica que a jornada desses empreendimentos é cíclica: avançam em vendas, retornam para organizar gestão e governança, buscam novos recursos, reorganizam o modelo e voltam a crescer.
As análises também indicam que muitos empreendimentos ainda enfrentam baixa previsibilidade de caixa, sazonalidade de receitas, altos custos logísticos e a necessidade de investimentos antecipados nas cadeias produtivas.
O estudo também evidencia a atuação de negócios que funcionam como hubs locais, apoiando outras organizações e cooperativas em formalização, assistência técnica, logística e acesso a mercados.
Setores e cadeias da bioeconomia
Em termos setoriais, os negócios se concentram em Agropecuária e Sistemas Alimentares (41%), Florestas e Uso do Solo (41%) e Indústria (30%). Há uma forte presença em cadeias da bioeconomia, como açaí, cacau, castanha-do-pará, palmeiras e produtos florestais não madeireiros, que representam 77% das iniciativas mapeadas. Do ponto de vista dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), destacam-se negócios conectados com Produção e Consumo Sustentáveis (ODS 12), Fome Zero e Agricultura Sustentável (ODS 2) e Indústria, Inovação e Infraestrutura (ODS 9).
Mensuração de impacto
Na dimensão do impacto, o estudo mostra forte alinhamento entre problema e solução. Em 87% dos casos, o problema socioambiental é claramente descrito e a solução se relaciona diretamente a esse desafio. O impacto está incorporado ao próprio modelo de negócio, seja na geração de renda local, na conservação de florestas ou na inclusão produtiva de comunidades.
Por outro lado, 69% dos negócios ainda não medem seu impacto de forma sistemática: 25% não definiram indicadores e 44% até os têm, mas não os utilizam com regularidade; apenas 26% contam com processos formais de acompanhamento, internos ou auditados. Esse quadro dificulta transformar impacto em evidência, argumento de valor e, em muitos casos, ao acesso a capital mais alinhado com os resultados gerados no território.
O desafio de comunicar
Em negócios de impacto, comunicar significa não só vender um produto, mas traduzir o valor socioambiental da solução e educar o mercado sobre sociobiodiversidade, regeneração e inclusão produtiva. Em relação à comunicação, as entrevistas apontam que, apesar da presença ativa em redes sociais, sites e outros canais digitais, muitos empreendedores ainda enfrentam desafios em posicionamento de marca, narrativa de impacto e produção de relatórios para públicos diferentes.
O GIMPACT
O modelo de Gestão e Mensuração de Impacto do Fundo Vale foi desenvolvido em 2021 para gerenciar e mensurar os resultados e impactos de suas iniciativas até 2030. Com foco em eficiência, transparência e governança, o GIMPACT estabelece bases para demonstrar a contribuição da organização para mudanças de alto nível no curto, médio e longo prazo. Na prática, permite acompanhar quais resultados estão mais ou menos próximos de serem alcançados, conforme definido em sua Teoria de Mudança 2030, que aponta as premissas, estratégias, públicos-alvo, resultados e impactos pretendidos pela organização.
Para este estudo, uma metodologia combinando abordagem quantitativa e qualitativa, foi aplicada.Foram analisadas respostas de 114 negócios que passaram por programas apoiados pelo Fundo Vale entre 2020 e 2025, a partir de um questionário com 53 perguntas abertas e fechadas, aplicado no segundo semestre de 2025. A amostra faz parte de um universo de cerca de 660 empreendimentos convidados, das quais 188 responderam ao questionário; apenas sete declararam ter encerrado suas atividades. Além dos dados quantitativos, foram realizadas 34 entrevistas em profundidade com empreendedores selecionados para representar diferentes programas, níveis de maturidade, faixas de faturamento, estruturas jurídicas e perfis de impacto.
O estudo também incorporou entrevistas com quatro organizações parceiras que executam programas de apoio com suporte do Fundo Vale e comparou os resultados atuais com uma base histórica de 95 negócios da Base de Impacto, desenvolvida pela Pipe.Social e Quintessa. A análise estatística considerou margem de erro em torno de 7% e nível de confiança de 90%.