24/06/26

Com participação de Geoffrey Hawtin, vencedor do World Food Prize 2024, encontro reforçou que biodiversidade agrícola é ativo estratégico para a segurança alimentar  

No dia 23 de junho, Piracicaba (SP) recebeu a primeira edição brasileira do Fórum de Agricultura Regenerativa – Acelerando a Transição, um dos mais relevantes encontros internacionais dedicados à transformação dos sistemas alimentares e produtivos. O evento reuniu ciência, produtores, investidores e lideranças empresariais para encontrar convergências de como escalar soluções que regeneram solos, protegem a biodiversidade e aumentam a resiliência climática sem perder produtividade. A participação especial do Dr. Geoffrey Hawtin, vencedor do World Food Prize 2024, o “Nobel da Agricultura”, reforçou o recado: biodiversidade agrícola é um ativo estratégico para a segurança alimentar e para a competitividade do agro. Outro eixo relevante foi o financiamento, tratado como ponte essencial entre intenção e escala. 

Com apoio do Fundo Vale, o fórum foi promovido pelo Global Landscapes Forum (GLF), pela Sustainable Agriculture Network (SAN), pelo Imaflora e pelo CABI BioProtection Portal, com apoio do Café Orfeu e produção do Pecege. A escolha de Piracicaba, reconhecida por sua vocação em ciência agrícola e inovação, contribuiu para aproximar discussões globais de experiências brasileiras e para conectar diferentes elos da cadeia em torno de soluções aplicáveis no campo.  

Ao longo do dia, a programação evidenciou uma mudança de fase no debate sobre agricultura regenerativa. Em vez de concentrar esforços em justificar a transição, os painéis e diálogos se voltaram para o ritmo e as condições necessárias para fazê-la acontecer com consistência, mensuração e viabilidade econômica.  

O evento reuniu vozes do universo de investimentos e da economia verde, como Ricardo Abramovay, Talia Smith, Elizabeth Adu, além de representantes de organizações e empresas globais, para discutir como reduzir barreiras financeiras e acelerar a transição com instrumentos mais adequados ao risco e ao tempo da agricultura. O painel “Viabilizando a transição: Incentivos e financiamento para a agricultura regenerativa” contou com a participação de Juliana Vilhena, do Fundo Vale, ao lado de Saulo de Souza da Landscape Alliance, Alexandra Tuinstra da Root Capital, Talia Smith da Circular Bioeconomy Alliance e Phyllis R. Caldwell, investidora de impacto.     

“O Fórum de Agricultura Regenerativa, que foi sediado pela primeira vez no Brasil, foi uma grande oportunidade para avançar na estruturação de sistemas produtivos biodiversos e resilientes, fortalecendo a expansão das agroflorestas e das cadeias de valor da sociobiodiversidade. A presença de especialistas globais e nacionais mostra a importância da articulação técnica e estratégica com foco em agricultura regenerativa, conservação da biodiversidade, adaptação às mudanças climáticas e segurança alimentar”, destacou Juliana Vilhena, gerente de Estratégia, Gestão e Impacto do Fundo Vale. 

Biodiversidade como estratégia de resiliência 

A presença de Geoffrey Hawtin deu densidade técnica e urgência ao tema ao reposicionar a biodiversidade agrícola como variável estrutural de resiliência. Com trajetória ligada a centros do CGIAR (Grupo Consultivo para Pesquisa Agrícola Internacional) e à organização internacional Crop Trust, ele trouxe à discussão o papel da diversidade genética das culturas para sustentar produtividade e estabilidade de cadeias sob condições mais severas de clima, pragas e estresse hídrico. 

 A leitura que ganhou força no evento foi que preservar biodiversidade não é apenas uma medida de conservação, mas uma estratégia de gestão de risco e continuidade de negócios, especialmente em sistemas produtivos expostos a extremos climáticos e volatilidade de insumos. 

Soluções sustentáveis exigem suporte alinhado às realidades regionais 

A coordenadora regional do GLF para América Latina e Caribe, Isabel Mesquita, destacou: “Diferentemente da agricultura convencional, que pode degradar os solos e depende de fertilizantes químicos e pesticidas, a agricultura regenerativa oferece uma abordagem mais sustentável, promovendo rotação de culturas, biocontrole e biofertilizantes”.  

A discussão foi reforçada por especialistas como José Roberto Postali Parra, da ESALQ USP, referência em controle biológico, e por atores internacionais ligados ao CABI BioProtection Portal, com foco em desempenho agronômico, qualidade de implementação e condições de adoção. Entre os aprendizados mais citados esteve a importância de assistência técnica e de modelos de difusão que considerem realidade regional, calendário agrícola e previsibilidade de resultados, evitando que soluções promissoras fiquem restritas a projetos-piloto. 

Colaboração “radical” para destravar a escala 

A dimensão de colaboração apareceu não apenas como discurso, mas como método. O fórum promoveu experiências imersivas em Living Labs, sessões de networking e trocas orientadas por casos práticos, culminando na construção coletiva de um Manifesto de Colaboração Radical, pensado para orientar ações e compromissos de aceleração nos próximos anos. A mensagem subjacente foi que agricultura regenerativa não cresce com iniciativas isoladas. Ela precisa de coordenação entre produtores, ciência, empresas, finanças, políticas públicas e organizações comunitárias para destravar adoção em massa, evitar assimetrias de informação e reduzir fricções de implementação. 

O protagonismo brasileiro na agenda regenerativa 

Na avaliação do Imaflora, o evento reforçou o momento de transformação aplicada. Eduardo Trevisan, diretor de ESG e Certificações, afirmou: “Reunir no Brasil algumas das principais referências mundiais nesse tema cria uma oportunidade única de acelerar conexões, compartilhar experiências e transformar conhecimento em ação concreta no campo. O país tem competência técnica, biodiversidade e capacidade de inovação para ser protagonista dessa transformação”.  

Liderança feminina e inclusão na transição 

 Em um ano reconhecido como o Ano Internacional da Mulher Agricultora na FAO ONU, o fórum conectou visibilidade com agenda prática, enfatizando que acesso a capital, assistência técnica, redes de comercialização e espaços de decisão são fatores que determinam a consistência e a permanência das mudanças no campo. 

O debate sobre liderança feminina reuniu investidoras, executivas, produtoras e lideranças de diferentes territórios para discutir como inclusão e governança influenciam a capacidade de transformação dos sistemas alimentares. Participaram nomes como Elizabeth Adu, Phyllis R. Caldwell, Teresa Corção, Nancy Reyna López, Julia Bolton, da IFC, Isabela Pascoal Becker, da Daterra, e Juliana Vilhena, do Fundo Vale. 

Métricas, carbono e rastreabilidade como infraestrutura de credibilidade 

Como pano de fundo, as conversas refletiram a pressão global por transformação dos sistemas alimentares em um cenário de mudanças climáticas e exigências crescentes de mercado. Nesse contexto, o evento reforçou um aprendizado operacional que interessa diretamente ao ecossistema de impacto: a transição exige métricas e monitoramento proporcionais à realidade do campo.  

Monitoramento de carbono, indicadores de solo e biodiversidade e rastreabilidade apareceram como infraestrutura de credibilidade e de acesso a mercados, mas também como possível gargalo se forem caros, complexos ou desconectados da rotina produtiva. A conclusão prática foi que bons sistemas de mensuração precisam ser robustos, mas viáveis, para gerar confiança sem inviabilizar a adoção.