24/06/26

Levantamento com mais de 100 empreendimentos participantes dos programas apoiados pelo Fundo Vale deu origem ao estudo “Estruturação de Negócios de Impacto e a Complexidade de Apoios” – um dos destaques das análises sobre os cinco primeiros anos da Teoria de Mudança 2030 da organização

O Fundo Vale está consolidando os resultados de cinco anos de atuação orientada por sua Teoria de Mudança 2030. As análises estãoreunindo dados, evidências e histórias que ajudam a traduzir números em transformações concretas na vida das pessoas e nos territórios. Entre os destaques, está o estudo “Estruturação de Negócios de Impacto e a Complexidade de Apoios”, realizado em parceria com a Pipe.Social, por meio da Pipe.Labo, e a Manacá Tecnologias Sociais, e lançado durante o Impacta Mais, em 21 de junho, em São Paulo.

O estudo é fruto das reflexões geradas no acompanhamento do portfólio do Fundo a partir do GIMPACT, modelo próprio de gestão e mensuração de impacto desenvolvido para monitorar a Teoria da Mudança do Fundo Vale. Hoje, o GIMPACT acompanha mais de 880 negócios, que deram origem à amostra de 114 empreendimentos analisados em profundidade neste relatório. O foco foi especificamente o resultado: negócios de impacto socioambiental estruturados, gerando retorno financeiro e com potencial de escala.

“Este estudo nos ajuda a compreender melhor como diferentes tipos de apoio contribuem para a maturidade, a sustentabilidade financeira e o potencial de escala dessas soluções. Ao compartilhar esses aprendizados, queremos contribuir para o fortalecimento do ecossistema de impacto e oferecer subsídios para que financiadores, dinamizadores e organizações orientem suas decisões com foco em impacto, escala e sustentabilidade no longo prazo”, explica Márcia Soares, gerente de Amazônia e Parcerias do Fundo Vale.

Resultados

A partir do recorte estipulado, o estudo mostra que o ecossistema de impacto avança com um conjunto significativo de negócios formalizados, faturando e fortalecendo cadeias produtivas, mas ainda enfrenta desafios importantes para consolidar a sustentabilidade financeira. A análise indica que os avanços mais consistentes ocorrem quando diferentes tipos de apoio são combinados — articulando recursos não reembolsáveis, fortalecimento de gestão e governança, planejamento financeiro e conexões com mercados — em vez de ações pontuais focadas apenas em aporte de capital ou capacitações isoladas.

A amostragem de 114 empreendimentos indica que 89% dos negócios registraram faturamento no último ano, sendo 56% acima de R$ 100 mil e 33% até R$ 100 mil. Apesar disso, mais da metade não se considera financeiramente sustentável e 22% permanece dependente de recursos não reembolsáveis para manter as operações e investir em crescimento. Ao longo de sua trajetória, 68% já acessaram esse tipo de recurso, 42% tomaram empréstimos e 20% receberam aportes em troca de participação societária. Hoje, apenas 46% afirmam que o negócio “se paga”, a dependência de doações, prêmios e subvenções segue elevada e 33% dos empreendimentos estão em busca de investimentos acima de R$ 1 milhão.

Aprendizados para o ecossistema

O estudo reuniu 12 aprendizados importantes para o ecossistema de impacto. Entre eles, a constatação de que maturidade não é sinônimo de faturamento alto nem de “escala” nos moldes tradicionais de startup. A trajetória dos negócios analisados é marcada por ciclos: eles crescem em vendas, melhoram gestão e governança, ajustam o modelo e recomeçam. O crescimento aparece menos como consequência de uma base sólida e mais como aposta para o alcance de equilíbrio econômico , o que reforça a importância de apoios que combinem capital paciente, gestão financeira e governança, em vez de incentivos focados apenas em aumento de escala.

Outro grupo de aprendizados mostra que impacto, território e apoio caminham juntos, mas ainda com lacunas importantes. Em 87% dos casos, problema socioambiental e solução estão bem conectados, com geração de renda local e fortalecimento de cadeias da sociobiodiversidade, porém 69% dos negócios ainda não medem impacto de forma sistemática e enfrentam desafios para comunicar resultados e posicionar sua marca. O estudo indica que os programas geram legado mais consistente quando chegam na fase de estruturação do negócio, com pacotes de apoio que incluem gestão, governança e comunicação. Além disso, quando reconhecem o papel de negócios que já funcionam como hubs locais, ajudam a desenvolver outros empreendimentos em suas cadeias produtivas.

O que funciona na prática: combinações de apoio fazem mais diferença que ações isoladas

O estudo aponta que não é apenas o volume de recursos que determina o avanço dos negócios, mas o desenho do apoio. Nas entrevistas, empreendedores destacam que os resultados mais consistentes surgem quando capital e desenvolvimento de capacidades caminham juntos. A combinação de recursos não reembolsáveis com apoio em gestão, governança, planejamento financeiro e conexões com mercados aparece de forma recorrente como um diferencial para organizar a casa, testar modelos, ganhar tração e se preparar para investimentos maiores.

Programas que oferecem acompanhamento de médio e longo prazo, com mentoria próxima e espaço para ajustes ao longo do percurso, são percebidos como mais efetivos do que iniciativas pontuais, focadas apenas em capacitações rápidas ou repasses de recursos. O estudo também indica que apoios que consideram a realidade das cadeias produtivas, marcadas por sazonalidade, custos logísticos e necessidade de investimentos antecipados, tendem a ser mais aderentes quando trazem prazos mais longos, maior flexibilidade no uso dos recursos e alinhamento explícito com o impacto socioambiental no território.

Maturidade dos negócios

O levantamento mostra que metade dos negócios tem mais de cinco anos de existência e quase um quarto atua há mais de dez anos. Ainda assim, 40% se enxergam em fase de estruturação do negócio, 40% em crescimento e apenas 2% em escala. A análise qualitativa indica que a jornada desses empreendimentos é cíclica: avançam em vendas, retornam para organizar gestão e governança, buscam novos recursos, reorganizam o modelo e voltam a crescer.

As análises também indicam que muitos empreendimentos ainda enfrentam baixa previsibilidade de caixa, sazonalidade de receitas, altos custos logísticos e a necessidade de investimentos antecipados nas cadeias produtivas.

O estudo também evidencia a atuação de negócios que funcionam como hubs locais, apoiando outras organizações e cooperativas em formalização, assistência técnica, logística e acesso a mercados.

Setores e cadeias da bioeconomia

Em termos setoriais, os negócios se concentram em Agropecuária e Sistemas Alimentares (41%), Florestas e Uso do Solo (41%) e Indústria (30%). Há uma forte presença em cadeias da bioeconomia, como açaí, cacau, castanha-do-pará, palmeiras e produtos florestais não madeireiros, que representam 77% das iniciativas mapeadas. Do ponto de vista dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), destacam-se negócios conectados com Produção e Consumo Sustentáveis (ODS 12), Fome Zero e Agricultura Sustentável (ODS 2) e Indústria, Inovação e Infraestrutura (ODS 9).

Mensuração de impacto

Na dimensão do impacto, o estudo mostra forte alinhamento entre problema e solução. Em 87% dos casos, o problema socioambiental é claramente descrito e a solução se relaciona diretamente a esse desafio. O impacto está incorporado ao próprio modelo de negócio, seja na geração de renda local, na conservação de florestas ou na inclusão produtiva de comunidades.

Por outro lado, 69% dos negócios ainda não medem seu impacto de forma sistemática: 25% não definiram indicadores e 44% até os têm, mas não os utilizam com regularidade; apenas 26% contam com processos formais de acompanhamento, internos ou auditados. Esse quadro dificulta transformar impacto em evidência, argumento de valor e, em muitos casos, ao acesso a capital mais alinhado com os resultados gerados no território.

O desafio de comunicar

Em negócios de impacto, comunicar significa não só vender um produto, mas traduzir o valor socioambiental da solução e educar o mercado sobre sociobiodiversidade, regeneração e inclusão produtiva. Em relação à comunicação, as entrevistas apontam que, apesar da presença ativa em redes sociais, sites e outros canais digitais, muitos empreendedores ainda enfrentam desafios em posicionamento de marca, narrativa de impacto e produção de relatórios para públicos diferentes.

O GIMPACT

Omodelo de Gestão e Mensuração de Impacto do Fundo Vale foi desenvolvido em 2021 para gerenciar e mensurar os resultados e impactos de suas iniciativas até 2030. Com foco em eficiência, transparência e governança, o GIMPACT estabelece bases para demonstrar a contribuição da organização para mudanças de alto nível no curto, médio e longo prazo. Na prática, permite acompanhar quais resultados estão mais ou menos próximos de serem alcançados, conforme definido em sua Teoria de Mudança 2030, que aponta as premissas, estratégias, públicos-alvo, resultados e impactos pretendidos pela organização.

Para este estudo, uma metodologia combinando abordagem quantitativa e qualitativa, foi aplicada.Foram analisadas respostas de 114 negócios que passaram por programas apoiados pelo Fundo Vale entre 2020 e 2025, a partir de um questionário com 53 perguntas abertas e fechadas, aplicado no segundo semestre de 2025. A amostra faz parte de um universo de cerca de 660 empreendimentosconvidados, das quais 188 responderam ao questionário; apenas sete declararam ter encerrado suas atividades. Além dos dados quantitativos, foram realizadas 34 entrevistas em profundidade com empreendedores​ selecionados para representar diferentes programas, níveis de maturidade, faixas de faturamento, estruturas jurídicas e perfis de impacto.

O estudo também incorporou entrevistas com quatro organizações parceiras que executam programas de apoio com suporte do Fundo Vale e comparou os resultados atuais com uma base histórica de 95 negócios da Base de Impacto, desenvolvida pela Pipe.Social e Quintessa. A análise estatística considerou margem de erro em torno de 7% e nível de confiança de 90%.